Dia da Visibilidade Lésbica: 15 anos depois, produtoras cariocas resgatam beijo que a TV brasileira tentou apagar

Websérie independente reúne novamente Giselle Tigre e Luciana Vendramini como Marina e Marcela, personagens que protagonizaram um dos primeiros beijos entre mulheres da teledramaturgia brasileira

Celebrado em 29 de agosto, o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica carrega uma história marcada pela luta por representação, reconhecimento e espaço. A data surgiu em 1996, quando cerca de cem mulheres se reuniram no Rio de Janeiro para o 1º Seminário Nacional de Lésbicas (Senale), organizado pelo Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro (Colerj). O encontro teve como tema “Visibilidade, Saúde e Organização” e se tornou um marco na articulação do movimento lésbico brasileiro.

Três décadas depois, a discussão sobre visibilidade ganha novos contornos — desta vez na dramaturgia. É nesse território que atua a TDQ Produções (Tudo Que Eu Quero Produções), produtora carioca comandada pela cineasta Eve Cosendey e pela roteirista Andréa Lucena, sua esposa.

A dupla está à frente da websérie “Não Costumo Me Apaixonar Por Telefone”, spin-off de “Amor e Revolução”, novela exibida pelo SBT em 2011 e que ficou marcada por um dos primeiros beijos entre mulheres da teledramaturgia brasileira. Quinze anos depois, Giselle Tigre e Luciana Vendramini voltam a interpretar Marina e Marcela, agora em uma história que apresenta as personagens em uma nova fase da vida.

A proposta também rompe com um padrão recorrente na representação de mulheres lésbicas na ficção: a concentração de histórias em personagens jovens. Na nova produção, o romance é vivido por mulheres adultas, trazendo para o centro da narrativa afetos, desejos e experiências que ainda encontram pouco espaço no audiovisual brasileiro.

Uma série feita fora do circuito tradicional

“Não Costumo Me Apaixonar Por Telefone” não nasceu de um grande estúdio, de uma plataforma de streaming ou de um edital público. A produção foi viabilizada de forma independente pela própria TDQ Produções e tem o YouTube como plataforma de distribuição.

Para Eve Cosendey, a história também possui uma dimensão pessoal. Aos 14 anos, ela assistiu ao beijo protagonizado pelas personagens Marina e Marcela na televisão. A cena se tornou uma referência de representação que permaneceu com ela ao longo dos anos.

Agora, como cineasta, Eve participa da construção de uma nova etapa dessa história, ao lado de Andréa Lucena, roteirista e sua companheira. A experiência das duas, inclusive como mulheres 50+, atravessa a proposta da série e amplia o debate sobre representação de mulheres lésbicas maduras no audiovisual.

A iniciativa coloca em discussão não apenas quem aparece nas telas, mas também quem consegue produzir e financiar essas histórias. Ao optar por realizar o projeto de forma independente, as produtoras transformam a própria produção em uma declaração sobre a necessidade de criar espaços quando eles ainda não estão disponíveis.

Do beijo à continuidade de uma história

O retorno de Giselle Tigre e Luciana Vendramini aos papéis de Marina e Marcela funciona como uma espécie de reencontro entre passado e presente da televisão brasileira.

O beijo exibido em 2011 aconteceu em um momento em que demonstrações de afeto entre personagens lésbicas ainda eram pouco frequentes na televisão aberta. Quinze anos depois, a websérie recupera aquelas personagens e propõe imaginar o que poderia ter acontecido com elas depois daquele momento.

Mais do que repetir uma cena histórica, a produção busca dar continuidade a personagens que, durante anos, permaneceram associadas a um único momento da teledramaturgia.

No Dia da Visibilidade Lésbica, essa retomada ganha um significado particular. Em 1996, mulheres se reuniram no Rio para reivindicar visibilidade, saúde e organização. Em 2026, duas produtoras cariocas escolhem contar uma história sobre duas mulheres que a televisão brasileira apresentou, mas não acompanhou ao longo dos anos.

A lógica, em diferentes tempos, permanece semelhante: quando o espaço não é oferecido, é preciso construí-lo.

Sobre a TDQ Produções

Fundada em 2022, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, a TDQ Produções (Tudo Que Eu Quero Produções) atua na criação e produção de conteúdos para cinema, vídeo e televisão. A empresa é dirigida pela cineasta Eve Cosendey e pela roteirista Andréa Lucena.

“Não Costumo Me Apaixonar Por Telefone” integra essa trajetória e aposta na produção independente para ampliar a presença de histórias lésbicas adultas no audiovisual brasileiro.

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Edição especial. Agosto/2024

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