21.setembro - 2026 - 1:39

Quebrou, pagou tudo e recomeçou na pandemia: a história do empresário que só voltou a crescer com capital estrangeiro

De uma caixa de picolé em Arapiraca (AL) a um grupo logístico que hoje opera no Brasil e no Mercosul, Carlos André Gomes da Silva passou pela falência, levou 14 anos para quitar todas as dívidas e recomeçou durante a pandemia. Aos 50 anos, ele fala das dores de empreender no país e da conta que nunca aparece na planilha.

A primeira escola de negócios de Carlos André Gomes da Silva foi uma caixa de isopor. Aos 12 anos, ele percorria as ruas de Arapiraca, no agreste de Alagoas, vendendo picolé sob o sol. Ali, diz, aprendeu a lição que o acompanharia por quase quatro décadas: ouvir o “não” e encontrar um motivo para transformá-lo em “sim”.

“Quem para na primeira não vende picolé. Quem para na primeira não vende nada”, repete hoje o fundador e presidente do Grupo BRLogis, operador logístico do setor automotivo com sede em São Bernardo do Campo (SP).

A frase soa como bordão de palestra. Na trajetória dele, é biografia, narrada em primeira pessoa, sem esconder os tombos.

1. O auge, a quebra e a conta invisível

Com quase 30 anos dedicados ao transporte de veículos, Carlos André construiu a carreira no ABC paulista. Em 1999, fundou a Trans André. Em cinco anos, atingiu o auge. Em 2005, quebrou.

O roteiro da queda não foi o da falta de clientes. Foi o que ele descreve como uma sucessão de contratos malfeitos, uma traição e processos judiciais, uma bola de neve que, nas palavras dele, simplesmente não parava de crescer.

O custo humano veio junto. No auge, ele diz que tinha “duzentos, trezentos amigos”. No momento da quebra, restaram cinco. Os ativos da Trans André foram vendidos por muito menos do que valiam. E, segundo seu próprio relato, ele levou 14 anos para quitar, uma a uma, todas as dívidas, sem trocar de número de telefone e sem deixar devedor para trás.

É nesse ponto que a história deixa de ser sobre uma empresa e passa a ser sobre o que o país cobra de quem decide empreender. Para boa parte dos negócios brasileiros, a mortalidade não vem da operação, e sim do entorno: o contrato que não se sustenta na Justiça, o sócio que desiste, o crédito que chega caro e tarde, o tempo que se perde enquanto a dívida corre.

2. Recomeçar em plena pandemia

O segundo capítulo começou em 2020, no pior momento possível. Em outubro daquele ano, no meio da crise sanitária, ele fundou a BRLogis, segundo sua própria definição, “mais empresa de tecnologia do que de transporte”, com 75 sócios e foco inicial em locadoras de veículos.

A diferença entre o primeiro negócio e o segundo, ele resume numa frase que virou o prólogo de sua biografia, “Diesel na veia”: “A gente não cresceu, a gente inchou”.

A lição, diz, é a que faltou na primeira vez. Crescer é organizar, medir, sustentar; inchar é somar volume sem estrutura. Muitos empresários brasileiros, avalia, confundem as duas coisas até que a conta chegue, e, quando chega, o preço raramente é apenas financeiro.

3. Seis anos depois, o salto e o que ele revela

O cenário mudou. Em julho de 2026, o grupo registrou crescimento de 332% em um único mês, salto puxado por um aporte de investidores estrangeiros. O movimento abriu caminho para contratos com montadoras estrangeiras e para um investimento de R$ 75 milhões na renovação e ampliação da frota, com aumento considerável da capacidade para o transporte de veículos.

Em agosto, a BRLogis foi uma das empresas homenageadas no ranking EXAME Negócios em Expansão 2026, que reuniu 491 companhias, de um recorde de 838 inscritas, entre as que mais cresceram no último ano. A operação hoje alcança o Brasil e outros países do Mercosul, com frota própria e de terceiros, pátios, preparação de veículos e tecnologia própria de rastreamento.

“Estamos vivendo um momento transformador. O investimento nos permitiu acelerar planos que estavam previstos para os próximos anos. Com a nova frota e a parceria com três grandes montadoras, nossa expectativa é manter o ritmo de crescimento e ampliar ainda mais nossa participação no mercado”, afirma a direção da companhia.

Há, porém, um detalhe que a própria trajetória expõe: o salto que tirou o negócio do platô veio com capital estrangeiro. Para um empresário que passou 14 anos pagando dívidas antes de voltar a crescer, a história diz tanto sobre resiliência quanto sobre as dificuldades de financiar a expansão dentro de casa.

4. A ponte para o outro lado da fronteira

Em 2026, a inquietação o levou além do Brasil. Idealizador da BRPY Conexão, ele reuniu, em São Paulo, cerca de 100 empresários brasileiros e a cúpula política de Ciudad del Este para apresentar as condições que o Paraguai oferece ao investimento industrial, a Lei de Maquila, a energia mais barata e a zona industrial do país vizinho. Em maio, em sessão solene na Câmara Municipal de Maceió, recebeu a Comenda Vereador Otacílio Holanda pelo trabalho de aproximação entre os dois países.

O gesto é ambíguo e revelador. Ao mesmo tempo que aproxima empresários brasileiros de uma nova fronteira de negócios, ele aponta para uma pergunta incômoda: por que tanta gente procura do outro lado da linha o que ainda é difícil encontrar aqui.

5. O que fica

Aos 50 anos, Carlos André não apresenta sua história como exemplo de sucesso, e sim como sobrevivência. Fala de traição, de contratos que não se sustentaram, de amigos que se foram, de ativos vendidos a preço de ocasião e de 14 anos arrastando o peso de uma falência. Fala também das dores que não cabem em balanço: o medo, o isolamento, a sensação de recomeçar do zero quando já se conhecia o topo.

Para ele, a lição não está nas vitórias de 2026. Está no que sobrou de 2005, e na decisão de, mesmo assim, recomeçar. “Quem para na primeira não vende picolé”, repete. “Quem para na primeira não vende nada.”

Documento elaborado em 17 de setembro de 2026. As informações contidas são de responsabilidade do solicitante.

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Edição especial. Agosto/2024

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