Robson Gimenes, CEO da Shield Bank, explica como decisões equivocadas na gestão financeira geram riscos, perda de rentabilidade e limitações estratégicas
Crescer não é apenas vender mais, expandir equipe ou abrir novas unidades. Para muitos negócios, especialmente clínicas, consultórios, pequenos comércios e empresas familiares, o maior inimigo do crescimento está dentro de casa: a gestão financeira feita sem estrutura, sem governança e baseada em decisões improvisadas. O resultado aparece em ruídos diários, retrabalho, impostos pagos de forma indevida e uma instabilidade que impede que a empresa avance.
Segundo Robson Gimenes, CEO da Shield Bank, esse cenário se tornou comum em diversos segmentos e é responsável por travar a escalabilidade de negócios que, tecnicamente, têm potencial para crescer. O ponto central não está na operação, e sim na forma como o financeiro é organizado.
“A maior parte das quedas de rentabilidade não está ligada ao mercado, mas a uma estrutura interna que não acompanha o ritmo da empresa”, afirma.
A seguir, explicamos por que esse problema acontece, quais erros mais comprometem o desempenho e como uma gestão inteligente reduz riscos e aumenta a previsibilidade, algo essencial para qualquer empresa que queira sair do estágio operacional e alcançar um modelo escalável.
Copiar preços de concorrentes sem entender a estrutura de custos
Um dos erros mais frequentes é replicar o preço do concorrente acreditando que isso tornará o negócio mais competitivo. Na prática, cada empresa possui uma estrutura de custos completamente diferente: impostos, folha de pagamento, custos fixos, produtividade da equipe, repasse para parceiros, fornecedores, margem necessária para operação e até a região onde atua influenciam diretamente no cálculo.
O problema se agrava quando o empreendedor não calcula sua própria margem de contribuição e adota preços que não sustentam sua operação. Segundo Robson Gimenes, essa prática é uma das razões que levam empresas a crescerem “para baixo”, vendendo mais, mas ganhando menos. “Preço não é estratégia isolada. Ele é resultado de uma estrutura organizada. Sem isso, qualquer referência externa se torna perigosa”, explica.
Mudar adquirentes ou métodos de pagamento para economizar centavos
Muitas empresas acreditam que trocar o adquirente do cartão, reduzir taxas pontuais ou buscar alternativas mais baratas resolve um problema estrutural. Ocorre o oposto: taxas menores não compensam uma operação financeira mal ajustada.
Economias superficiais escondem gargalos maiores, como:
– fluxo de caixa desorganizado;
– falta de controle de recebíveis;
– ausência de conciliação;
– erros de classificação;
– modelos tributários mal aplicados.
Ou seja, trocar ferramentas não resolve questões de base. “Taxa não compensa falta de gestão. É como tentar resolver um problema de fundação trocando a cor da parede”, afirma Gimenes.
Operações complexas controladas por uma pessoa e dependentes de planilhas
Planilhas são úteis, mas deixam de ser suficientes quando a empresa cresce. Controlar operações complexas em um Excel que depende de uma única pessoa cria vulnerabilidade, especialmente quando qualquer ajuste pode quebrar fórmulas e comprometer informações essenciais.
Em muitos casos, quando a pessoa responsável se ausenta, o financeiro simplesmente para. Isso não apenas gera ruídos internos, como também afeta auditorias, repasses, impostos e análise real do resultado. A dependência excessiva de planilhas impede padronização, não gera histórico confiável e deixa a empresa exposta a erros humanos.
“Uma empresa que cresce precisa ter o financeiro baseado em sistema, processo e governança, não em um único operador. Escalabilidade não combina com vulnerabilidade”, reforça o CEO.
Repasse mal estruturado e risco de bitributação
Outro ponto crítico destacado por Robson Gimenes é o repasse financeiro entre contas, sócios ou unidades. Quando mal estruturado, isso pode gerar bitributação e comprometer boa parte da rentabilidade.
A bitributação acontece quando o mesmo fluxo financeiro é tributado mais de uma vez por falhas na classificação ou na forma como os repasses são feitos. O problema é comum em clínicas médicas, odontológicas, salões de beleza, restaurantes e negócios com múltiplos prestadores.
Robson explica que muitos empreendedores sequer percebem que estão pagando imposto duas vezes, ou pagando imposto sobre um valor que deveria estar classificado como repasse operacional, não como receita. “Quando isso acontece, a empresa literalmente queima dinheiro”, afirma.
Misturar finanças pessoais e empresariais
É um dos erros mais graves e mais comuns. Misturar contas pessoais com contas da empresa compromete a previsibilidade, dificulta a leitura real do resultado e impede qualquer tomada de decisão estratégica. Além disso, gera risco jurídico e tributário, podendo caracterizar confusão patrimonial.
Na prática, o empreendedor perde o controle da operação, não sabe quanto realmente ganha, não distingue despesas estratégicas de gastos pessoais e passa a operar “no escuro”.
“Empresa saudável tem conta própria, cartão próprio, planejamento próprio e resultado próprio. Misturar finanças destrói a capacidade de gestão”, explica Gimenes.
Por que tudo isso trava o crescimento
Crescer significa ganhar escala e escala só existe com três pilares:
– Previsibilidade;
– Rentabilidade sustentável;
– Risco reduzido.
Sem estrutura financeira adequada, nenhum desses pilares se sustenta. A empresa depende de improviso, não tem margem clara, paga impostos indevidos, se torna vulnerável a erros e não consegue planejar expansão. É o famoso “crescer sofrendo”.
Robson reforça que a estrutura financeira deve ser compatível com o modelo de negócio e com o tamanho da operação. Sem isso, até empresas com forte demanda e bom produto ficam estagnadas.
Gestão inteligente: o que muda na prática
Uma estrutura bem definida proporciona:
– leitura correta de resultados;
– decisões rápidas e baseadas em dados;
– controle real de margem e lucratividade;
– repasses organizados e sem riscos fiscais;
– previsibilidade do fluxo de caixa;
– segurança para escalar;
– diminuição drástica de erros operacionais;
– conformidade tributária;
– proteção patrimonial.
A partir disso, a empresa consegue sair do modo “apagando incêndios” e entrar no modo estratégico: expansão, investimento, abertura de novas unidades e aumento de lucratividade real.
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